Após perícia em 50 postos de combustíveis de Curitiba e região, oito pessoas são indiciadas por fraudes e adulteração
23/01/2026
(Foto: Reprodução) PF indicia 8 por fraudes em postos de combustíveis
A Polícia Federal (PF) indiciou oito pessoas por fraudes e adulteração em postos de combustíveis em Curitiba e na Região Metropolitana. Os nomes deles não foram divulgados.
A corporação analisou 50 postos de combustíveis. As investigações apontaram que o esquema acontecia de duas formas: fornecendo menos combustível do que o indicado na bomba, ou aumentando a quantidade do etanol adicionado à gasolina. Leia detalhes a seguir.
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Conforme a Polícia Federal, os oito investigados foram indiciados por estelionato – por usar artifício ardiloso para induzir o consumidor ao erro e obter vantagem ilícita – e por crime contra a ordem econômica – pela aquisição e revenda de combustíveis em desacordo com as normas legais.
Segundo a Polícia Federal, os indiciados foram identificados como o núcleo de comando e gestão da rede de postos. Somadas, as penas podem chegar a 40 anos de reclusão para cada um deles.
Por meio de nota, o Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis (Paranapetro) afirmou que a infiltração do crime organizado no segmento de combustíveis de todo o Brasil é um problema grave e que investigações como esta são importantes para combater a ilegalidade no segmento.
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Gasolina a menos e qualidade inferior
Laudo da Polícia Federal detalha resultados das amostras dos combustíveis
Durante as investigações, agentes da Polícia Federal coletaram, disfarçados, as amostras de gasolina comum para a investigação que apura a adulteração na qualidade dos combustíveis ou na quantidade indicada na bomba.
As coletas aconteceram entre os dias 26 de maio de 6 de junho de 2025. Segundo o laudo da perícia ao qual a RPC teve acesso, apenas 6 das 50 amostras coletadas apresentaram a quantidade correspondente ao que estava descrito na nota fiscal fornecida pelos postos.
Nos outros 44 casos, os postos forneceram menos combustível do que o indicado na bomba, com diferenças que variaram de 1% até 8,1% a menos do que o pago pelo consumidor.
O Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia) determina que a variação aceitável entre o volume real e o informado é de até 0,5% para mais ou para menos.
Aparência dos combustíveis coletados foram analisadas
Reprodução/RPC
A perícia também analisou o se o aspecto, o teor de etanol e a massa específica estavam dentro das especificações de qualidade determinadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
A análise apontou que 28 das 50 amostras apresentaram qualidade inferior do que o exigido.
Na análise da aparência, uma amostra foi reprovada, porque não apresentou aspecto límpido, homogêneo e isento de purezas.
De 50 postos analisados em Curitiba e Região, 44 abasteciam menos do que o indicado na nota fiscal, aponta laudo da Polícia Federal
TV Sergipe/Reprodução
Em relação ao teor do etanol adicionado à gasolina, 28 amostras apresentaram valores acima do permitido.
Nesta avaliação, as amostras reprovadas tinham de 35% a 79% de álcool misturado à gasolina – na época da coleta das amostras, a quantidade máxima de etanol adicionado permitido era de 27%, com margem de variação aceitável de até 2% para mais ou para menos.
A prática, conforme a Polícia Federal, além de configurar crime, causa danos diretos aos veículos dos consumidores e aumenta artificialmente o lucro dos criminosos.
Ligação com o crime organizado
Postos de combustíveis eram usados para lavagem de dinheiro
RPC
A investigação demonstrou que a fraude nos postos era a base de um esquema bilionário de lavagem de dinheiro do crime organizado.
Os lucros obtidos enganando o consumidor eram reinjetados em uma estrutura financeira que movimentou bilhões de reais, utilizando empresas de fachada e "laranjas" profissionais para ocultar a origem ilícita dos recursos.
De acordo com a PF, as investigações tiveram início em 2023, quando um homem condenado por tráfico internacional e a esposa passaram a ostentar bens de luxo em um condomínio de alto padrão em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.
O casal tinha mais de R$ 34 milhões sem origem lícita comprovada aplicados em imóveis, veículos, barcos e outros artigos de luxo.
Durante as apurações, os agentes descobriram que eles se associaram a integrantes de uma empresa de produtos químicos e de uma distribuidora de petróleo com sede administrativa em Pinhais e sede operacional em Paulínia (SP).
Com uma empresa de comércio de produtos químicos, compraram insumos como nafta e metanol, usados em misturas ilegais de combustíveis.
Em 2019, criaram uma distribuidora de petróleo que entre 2020 e 2023 declarou faturamento de mais de R$ 7 bilhões. Segundo a PF, a companhia foi criada e funcionou com recursos ilícitos.
A investigação apontou que essa distribuidora estava ligada a pessoas citadas em esquemas de fraude de combustíveis em São Paulo e no Rio de Janeiro, inclusive com conexões a facções criminosas.
A PF explicou que a lavagem de dinheiro seguia três etapas: colocação, dissimulação e integração.
Colocação: o dinheiro ilegal entrava na economia formal por depósitos em espécie, muitas vezes fracionados em pequenas transações, além de transferências feitas por empresas de fachada registradas em nome de laranjas.
Dissimulação: os valores circulavam entre diferentes empresas do grupo, com simulações de operações e fraudes fiscais.
Integração: os recursos voltavam ao mercado como se fossem legais, registrados em contabilidade fraudulenta da distribuidora.
Ao todo, foram identificados R$ 594 milhões em depósitos em espécie sem origem comprovada. Parte do dinheiro foi disfarçada como "adiantamento de clientes" ou movimentada por postos e lojas de conveniência.
Os valores eram transportados em carros-fortes de empresas de pagamento também controladas pelo grupo.
Além disso:
R$ 148 milhões entraram diretamente nas contas da distribuidora;
R$ 203 milhões foram depositados nas contas de postos e conveniências;
R$ 163 milhões foram para uma instituição de pagamentos do próprio grupo, usada como "barreira" para ocultar a origem;
R$ 80 milhões foram distribuídos em contas de 13 operadoras financeiras;
R$ 482 milhões vieram de empresas de fachada ligadas a São Paulo.
Mais de 120 empresas suspeitas ainda transferiram cerca de R$ 1,4 bilhão sem qualquer justificativa.
No total, os investigadores estimam que mais de R$ 20 bilhões tenham circulado entre 2019 e 2025 em empresas sem declarações fiscais correspondentes.
Operação mira 46 postos de Curitiba por lavagem de dinheiro e adulteração de combustíveis
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